terça-feira, 2 de abril de 2019

Até sempre!




Tive sempre uma vida serena e fácil. A filha mais nova de dois filhos mais velhos. A neta mais nova. A sobrinha e afilhada mais nova. A mais nova de todos os primos. A menina da família, protegida, amada, para quem não havia obstáculos.

À medida que fui crescendo, e após uma infância doce, apercebi-me que as coisas não eram sempre simples, que as contrariedades fazem parte da rotina diária, e que os outros não são dóceis nem bons nem fáceis.

Desde 2017, que a vida me tem vindo a ensinar isso de forma acutilante. Pela primeira vez, senti na pele a maldade humana na sua forma mais cruel. Tenho aprendido que a vida é sinónimo de sofrimento e que a leveza que trazia da infância, não passa de uma ilusão temporária, a que só os mais felizardos têm acesso. 

Se 2018 foi um ano difícil, nada me preparava para o início de 2019. No dia 24 de fevereiro, partiu o meu padrinho, enquanto dormia. Tinha 67 anos e foi sempre o melhor pai do mundo! Tenho pai, felizmente. Mas o meu padrinho era a referência masculina da minha vida. Não há dia nenhum de todos os dias da minha vida, em que eu não tivesse o meu padrinho por perto. Velou-me a infância. Protegeu-me na adolescência. Deu-me todos os conselhos possíveis na entrada da idade adulta. Fazia parte do meu dia-a-dia com a sua boa disposição, a sua presença constante e firme e a sua solidariedade sem limites.

Para além de meu padrinho, era meu tio, meu amigo e meu vizinho. Uma âncora. Um abrigo. Um porto seguro. Uma casa. Era dele a "Casa do Pátio" que dá o título a este blogue. Precisei de muito tempo para conseguir vir aqui ao blogue escrever umas linhas. Continuo desanimada e triste. Desamparada e sozinha. Mas a fase da revolta já passou. Ficou só a saudade imensa que sinto a todos os minutos, a sua ausência que dói de forma dilacerante.

Continuo a tentar estabelecer uma nova rotina enquanto amparo a viúva (sua companheira de todos os dias há mais de 50 anos), o filho (o biológico, porque o meu padrinho foi pai de muita gente, eu incluída) e restante família. Não sei como vamos todos sobreviver sem ele. Como nos vamos reerguer e juntar as peças novamente.

Dizem-me que é um dia de cada vez. Que daqui a uns tempos, começa a melhorar. Mas eu não acredito. Ainda o ouço e o vejo quando menos espero. Lembro-me da comida que gostava, dos seus jogos do Benfica, da sua generosidade ilimitada.

Refugio-me nos livros, como sempre. Comecei a ler sobre as experiências de quase morte, na tentativa de encontrar algum conforto. Mas como encontrar a paz quando acompanho diariamente a minha tia, que não sabe mais como viver sem o seu amor e a sua companhia de meio século?

Espero continuar a vir aqui novamente. Com regularidade. Espero ter forças para isso.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Sobre a fatura da luz...




Quando se trata de política, manifesto-me muito pouco. Principalmente porque sou apartidária e não me identifico com nenhuma ideologia nem à esquerda nem à direita.

Sempre me interessei muito pela atualidade. Quem gosta de história como eu, aprecia especialmente a história que se está a construir no presente, um pouco por todo o mundo. Consigo distanciar-me o suficiente para analisar os acontecimentos "de fora" e manter-me atenta aos jogos sociais e políticos que vão acontecendo por esse mundo.

Observo tudo muito atentamente sem me considerar mais de um lado, ou mais do outro. Identifico-me com ideologias de ambos os lados. Critico tantas coisas dos dois lados também.

Contudo, nos últimos tempos, tenho dado por mim mais interventiva. Em conversas em família. Ou com amigos. Hoje enquanto analisava a fatura da luz, decidi-me a escrever este post.

Sou cliente da EDP e, tal como todos os portugueses, não ando nada satisfeita com o que pago ao final do mês. Somos duas pessoas em casa. Saímos às 8h da manhã e chegamos sensivelmente às 18h30. É impossível gastarmos de luz o que a fatura acusa todos os meses. Este assunto andava a aborrecer-me e este fim-de-semana sentei-me com calma a analisar a fatura.

Então, para além da luz propriamente dita e gasta, pago o seguinte:

- O imposto DGEG - da Direção Geral de Energia e Geologia

- O imposto IEC - Imposto Especial de Consumo (que não sei bem para que serve).

- A Contribuição Audiovisual (por um canal e uma estação de rádio que não vejo/ouço e pela qual já pago à TV Cabo!).

- O imposto CIEJ - Custos de Interesse Económico e Geral (!?)

- E sobre todos estes impostos, acresce o IVA a 23%. 

- O IVA a 23% acresce também ao valor efetivo da luz que propriamente gasto.

Não vou comentar o preço do KWH. Que é absolutamente absurdo.

Nem vou comentar os impostos que pagamos mensalmente com a nossa fatura.

Cada um tirará as conclusões que quiser.

Eu só deixo ficar aqui uma nota: temos 230 deputados na Assembleia que custam anualmente aos contribuintes mais de 100 milhões. Temos cerca de 30 deputados no Parlamento Europeu, que custam outro tanto.

Como diria Sophia, "Vemos, ouvimos e lemos, não podemos calar."

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Histórias à Sexta!


O Padre Avelino tem setenta anos. Há mais de quarenta que percorre o interior do país para levar a salvação às almas. Faz centenas de quilómetros todas as semanas, de aldeia em aldeia, para fazer batizados, casamentos, funerais, extremas unções e, muitas vezes, espantar os espíritos que atormentam pessoas de bem. 

Encara o sacerdócio como uma missão e não como um dever. Acredita que pode chegar às pessoas e mudar-lhes a vida, levando-as a encontrar o caminho do Bem.

Sabe falar com elas, apaziguá-las, dar-lhes bons conselhos, mediar conflitos entre vizinhos, brincar com crianças, e conhece ainda muito sobre medicina, sabendo os segredos das ervas. A todos acode, sem deixar ninguém de fora.

De seu, não tem nada. Nem casa, nem carro, nem bens. Apenas dois fatos, duas camisas e um par de sapatos. Duas mudas de roupa interior. Dorme em casa das pessoas a quem acode, muitas vezes em algumas pensões, e não raras vezes, na rua. Come o que lhe dão. Bebe água das fontes. Não é exigente.

Mais que o apelo da igreja, o Padre Avelino sente o apelo do Outro. Interessa-lhe mais o homem mundano do que as lides da igreja. Muitos apelidam-no de Santo. Avelino encolhe os ombros com um sorriso, e nada diz. Nunca negou que tem contacto direto com o além. E é frequente acontecerem pequenos milagres, quando está por perto.

Certo dia, apanhou o comboio para se dirigir a uma terreola. Não comprou bilhete porque não tinha dinheiro. Dinheiro era coisa que nunca lhe interessou. Ia a meio do caminho quando o revisor apareceu e, não tendo como pagar, o Padre foi expulso do comboio. Já na rua, Avelino anunciava, "se eu não for, o comboio também não vai", e a verdade é que o motorista não conseguiu voltar a fazer o comboio andar. Ficou parado na estação, nem para um lado nem para o outro. Até que uma senhora, reconhecendo o Padre Avelino, avisa que se querem que o comboio ande, o padre têm de levar. Já sem saber o que fazerem e perante o protesto dos passageiros, o revisor e motorista, deixam o Padre entrar novamente no comboio. O motorista prega novamente fundo, e o comboio arranca sem aparente dificuldade.

Há vários acontecimentos como este na vida do Padre Avelino. Nas aldeias, todos lhe conhecem a fama. Mas o Padre não confirma nem desmente. Vive a sua vida com a mesma simplicidade de sempre, sem manias ou caprichos. Fala diretamente com Deus. Não precisa de nenhum colega para intermediar. Há muito tempo que não cumpre nada do que a diocese lhe manda. Faz como bem entende. Por norma, e apesar de ser um deles, não gosta de padres. Muito menos de bispos e afins. Aprecia mais o contacto com a Natureza do que as paredes de uma igreja. Não tem nada contra a Bíblia. Mas entende que o seu Deus é mais generoso e brincalhão do que aquela retrata.

Já não se fazem pessoas como o Padre Avelino. Quando ele morrer, cá em baixo vão sentir a sua falta. Não a falta de um homem da igreja. Nem a falta de um santo. Mas a falta de um amigo. Não há maior tesouro do que o de ter um amigo.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

De Receitas e Não Só...




Gosto muito de cozinhar.

Desde criança que a minha avó nos reunia (a mim, à minha irmã e aos meus primos) à volta do fogão. Juntos fazíamos um bocadinho de tudo, desde doces a salgados, a compotas, molhos e bebidas.

Os meus avós eram pessoas do campo, muito simples e práticas. Tinham um pequeno quintal que o meu avô cuidava com muito desvelo, e alguns animais também. Do que o quintal dava, a minha avó aproveitava tudo. E inventava muitas receitas, que eram criadas de acordo com os ingredientes que ela tinha em casa.

Em casa da nossa avó, a cozinha e o quintal eram o nosso centro, o nosso céu, à volta dos quais, tudo girava. Acontecia sempre que a avó nunca repetia receitas. Simplesmente porque como inventava tudo no momento, mais tarde não se lembrava já como fizera, para voltar a fazer. Se gostávamos muito de um bolo, já sabíamos que esse era único e especial. A avó já não saberia fazer igual outra vez.

Os meus avós não sabiam ler nem escrever. Nunca andaram na escola. Por isso, não se apontavam receitas. Não se estudavam poções em livros. Aprendia-se com a experiência da vida diária e com as mães e as avós.

A minha irmã, que era a mais velha de nós todos, e por isso a primeira a entrar na escola, mal aprendeu a ler e a escrever, começou a apontar, em cadernos coloridos, todas as receitas da avó. Nos anos seguintes, fomos acumulando um manancial de preciosidades da avó Micas. Com a ajuda da produção do quintal do avô Sousa.

Conservamos esses cadernos até hoje. A maioria das receitas já sabemos fazer de cor. Outras ainda consultamos. A muitas, já fizemos adaptações. Todos adoramos cozinhar. Todos inventamos na cozinha. Em nossas casas, a receita de hoje nunca mais se repete. Não sabemos fazer igual novamente.

Mantemos todos o amor ao quintal. O quintal ainda se mantém cultivado e tratado. Todos nos abastecemos do que ele dá. 

A vida consegue ser muito bela quando a mantemos simples. A avó Micas e o avô Sousa, onde quer que estejam, estão a sorrir-nos. Tenho a certeza!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sobre um Grande Amor...


Faz dois anos em maio que o Romeu chegou a nossa casa. Trouxemo-lo num impulso, após o termos visto bebé, junto da mãe.

Uns olhos cativantes, um pelo amarelo macio, e uma beleza que toca, levaram-nos a decidir ficar com ele, logo à primeira vista.

Sem pensar em mais nada nem medir as consequências.

Assim que pegamos nele ao colo (pela primeira vez) soltou um gemido contrariado e espreguiçou-se na nossa mão (era tão pequenino que cabia na palma de uma mão). Veio a miar pelo caminho todo até chegar a casa. Não parou um segundo. Hoje sabemos que detesta andar de carro. Na altura, pensávamos que era saudades da mãe.

Assim que entramos dentro de casa, e o pousamos no chão, passeou livremente pelas divisões, cheirou tudo muito bem, observou cada recanto com ar curioso. Muito caladinho e muito senhor de si. Experimentou a areia que tínhamos adquirido pelo caminho. Finalmente, subiu para o nosso colo, aconchegou-se, e dormiu um soninho descansado.

Sempre gostei de animais e sempre tive animais em casa. Já tinha tido gatos antes, um papagaio também, mas a morte deles é sempre tão dolorosa, que havíamos decidido, há muito tempo, não termos mais nenhum animal doméstico. 

É precisamente quando fazemos planos e tomamos decisões, que a vida nos troca as voltas, e vem ditar exatamente o contrário. Numa visita a casa de uns amigos, conhecemos os pais do Romeu, o Romeu e os seus três irmãozinhos. Mas foi do Romeu que gostámos logo. É daquelas coisas que não se sabe explicar. Sente-se e pronto.

Agora cá em casa, manda o Romeu. Adaptaram-se hábitos e rotinas em função dele. E adquiriram-se novos também.

Hoje chegar a casa, depois de um dia de trabalho, é uma felicidade: temos sempre o Romeu à porta, à nossa espera. Enrosca-se nas nossas pernas, rebola-se no chão, cheira-nos, lambe-nos as mãos. Tão bom uma receção assim após os dias difíceis dos trabalhos de hoje!

E enquanto andamos pela casa, o Romeu segue-nos, se vamos para o quarto, ele vai atrás de nós. Se vamos cozinhar, ele roça-se nas nossas pernas enquanto girámos pelo balcão da cozinha, e se até vamos ao quarto de banho, ele aninha-se aos nossos pés.

Não sei muita coisa sobre o amor. Sei que sou amada e que amo as "minhas" pessoas. Que é um amor forte e seguro e invencível. Sei também que um animal pode ser tão ou mais importante que uma pessoa. Sei que o Romeu é parte da família. Sei também que ele é um grande amor.





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Histórias à Sexta!


Ana e Maria são irmãs muito próximas. Não tiveram mais nenhum irmão e dividiram a infância entre atenções uma à outra e brincadeiras em conjunto.

Tiveram uma infância serena e feliz e uma adolescência sem complicações ou desassossegos. Faziam companhia uma à outra, liam juntas, cozinhavam os pratos favoritos, mimavam os pais.

Nenhuma quis casar. Gostavam da vida simples que levavam, sem maridos e filhos, zangas ou canseiras. E viveram a vida adulta juntas, na casa dos pais.

Já idosas, ambas temiam a morte. Mais por se perderem uma à outra do que por medo do outro lado. Combinaram então que a primeira que partisse, viria cá abaixo (partindo do pressuposto que existiria céu) contar à outra o que acontecia depois da morte.

Uma combinação pretexto para que a morte não as separasse. Mais do que qualquer curiosidade pelo outro mundo.

Ana partiu primeiro. E Maria vagueava pela casa sempre à espera que a irmã lhe aparecesse. Ana demorou muito a vir mas num dia de junho com muito sol, surgiu a Maria na cozinha, junto à máquina do café.

Maria, radiante de alegria, abraçou a irmã. Trocaram beijos e afetos. E, por fim, mais por dever do que por interesse, Maria perguntou: "Então, Ana, como é do outro lado?"

E Ana respondeu: "Tudo o que comi, nada vi. Tudo o que dei, lá encontrei".


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Vida Organizada






Gosto muito de organização.

Ser uma filha organizada, metódica e disciplinada, de dois pais que são o inverso de tudo isto, trouxe-me uma infância e adolescência muito atribulada. Entre dois mundos opostos, fui formando a minha personalidade, consegui ter a real perceção entre o certo e o errado, e encontrar um meio termo.

Hoje não sou de extremos, em nenhuma área da minha vida. Mas continuo a apreciar as coisas no seu sítio, os ambientes onde cada um sabe com o que contar, sem melodramas quando o inesperado acontece.

Faço listas de tudo. Procuro organizar e aproveitar o meu tempo da melhor maneira que consigo. Tenho muitos interesses, gosto de muitas coisas, e de muitas coisas diferentes, por isso obrigo-me a fazer listas de tudo, a dividir por categorias, a elencar prioridades.

Não gosto de me dispersar muito. Mas aprecio muito os momentos calmos e serenos quando os consigo ter. Aí desligo de tudo, das listas, dos problemas, das prioridades. Aí não há organização. Sou só eu e os meus pensamentos. Onde me tento ouvir, perceber o que sinto, tentar saber quem sou.

Valorizo muito a organização interna. Ter gavetas no cérebro, arrumadas, e que posso abrir e fechar de acordo com a minha conveniência. Saber o que sinto. Saber o que sinto e por quem. Distinguir medo de angústia. Alegria de felicidade. Razão de coração.

Ter uma vida organizada, por dentro e por fora, traz-me a serenidade que eu preciso para os sobressaltos do dia-a-dia.

E vocês, como se organizam?