quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

De Receitas e Não Só...




Gosto muito de cozinhar.

Desde criança que a minha avó nos reunia (a mim, à minha irmã e aos meus primos) à volta do fogão. Juntos fazíamos um bocadinho de tudo, desde doces a salgados, a compotas, molhos e bebidas.

Os meus avós eram pessoas do campo, muito simples e práticas. Tinham um pequeno quintal que o meu avô cuidava com muito desvelo, e alguns animais também. Do que o quintal dava, a minha avó aproveitava tudo. E inventava muitas receitas, que eram criadas de acordo com os ingredientes que ela tinha em casa.

Em casa da nossa avó, a cozinha e o quintal eram o nosso centro, o nosso céu, à volta dos quais, tudo girava. Acontecia sempre que a avó nunca repetia receitas. Simplesmente porque como inventava tudo no momento, mais tarde não se lembrava já como fizera, para voltar a fazer. Se gostávamos muito de um bolo, já sabíamos que esse era único e especial. A avó já não saberia fazer igual outra vez.

Os meus avós não sabiam ler nem escrever. Nunca andaram na escola. Por isso, não se apontavam receitas. Não se estudavam poções em livros. Aprendia-se com a experiência da vida diária e com as mães e as avós.

A minha irmã, que era a mais velha de nós todos, e por isso a primeira a entrar na escola, mal aprendeu a ler e a escrever, começou a apontar, em cadernos coloridos, todas as receitas da avó. Nos anos seguintes, fomos acumulando um manancial de preciosidades da avó Micas. Com a ajuda da produção do quintal do avô Sousa.

Conservamos esses cadernos até hoje. A maioria das receitas já sabemos fazer de cor. Outras ainda consultamos. A muitas, já fizemos adaptações. Todos adoramos cozinhar. Todos inventamos na cozinha. Em nossas casas, a receita de hoje nunca mais se repete. Não sabemos fazer igual novamente.

Mantemos todos o amor ao quintal. O quintal ainda se mantém cultivado e tratado. Todos nos abastecemos do que ele dá. 

A vida consegue ser muito bela quando a mantemos simples. A avó Micas e o avô Sousa, onde quer que estejam, estão a sorrir-nos. Tenho a certeza!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sobre um Grande Amor...


Faz dois anos em maio que o Romeu chegou a nossa casa. Trouxemo-lo num impulso, após o termos visto bebé, junto da mãe.

Uns olhos cativantes, um pelo amarelo macio, e uma beleza que toca, levaram-nos a decidir ficar com ele, logo à primeira vista.

Sem pensar em mais nada nem medir as consequências.

Assim que pegamos nele ao colo (pela primeira vez) soltou um gemido contrariado e espreguiçou-se na nossa mão (era tão pequenino que cabia na palma de uma mão). Veio a miar pelo caminho todo até chegar a casa. Não parou um segundo. Hoje sabemos que detesta andar de carro. Na altura, pensávamos que era saudades da mãe.

Assim que entramos dentro de casa, e o pousamos no chão, passeou livremente pelas divisões, cheirou tudo muito bem, observou cada recanto com ar curioso. Muito caladinho e muito senhor de si. Experimentou a areia que tínhamos adquirido pelo caminho. Finalmente, subiu para o nosso colo, aconchegou-se, e dormiu um soninho descansado.

Sempre gostei de animais e sempre tive animais em casa. Já tinha tido gatos antes, um papagaio também, mas a morte deles é sempre tão dolorosa, que havíamos decidido, há muito tempo, não termos mais nenhum animal doméstico. 

É precisamente quando fazemos planos e tomamos decisões, que a vida nos troca as voltas, e vem ditar exatamente o contrário. Numa visita a casa de uns amigos, conhecemos os pais do Romeu, o Romeu e os seus três irmãozinhos. Mas foi do Romeu que gostámos logo. É daquelas coisas que não se sabe explicar. Sente-se e pronto.

Agora cá em casa, manda o Romeu. Adaptaram-se hábitos e rotinas em função dele. E adquiriram-se novos também.

Hoje chegar a casa, depois de um dia de trabalho, é uma felicidade: temos sempre o Romeu à porta, à nossa espera. Enrosca-se nas nossas pernas, rebola-se no chão, cheira-nos, lambe-nos as mãos. Tão bom uma receção assim após os dias difíceis dos trabalhos de hoje!

E enquanto andamos pela casa, o Romeu segue-nos, se vamos para o quarto, ele vai atrás de nós. Se vamos cozinhar, ele roça-se nas nossas pernas enquanto girámos pelo balcão da cozinha, e se até vamos ao quarto de banho, ele aninha-se aos nossos pés.

Não sei muita coisa sobre o amor. Sei que sou amada e que amo as "minhas" pessoas. Que é um amor forte e seguro e invencível. Sei também que um animal pode ser tão ou mais importante que uma pessoa. Sei que o Romeu é parte da família. Sei também que ele é um grande amor.





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Histórias à Sexta!


Ana e Maria são irmãs muito próximas. Não tiveram mais nenhum irmão e dividiram a infância entre atenções uma à outra e brincadeiras em conjunto.

Tiveram uma infância serena e feliz e uma adolescência sem complicações ou desassossegos. Faziam companhia uma à outra, liam juntas, cozinhavam os pratos favoritos, mimavam os pais.

Nenhuma quis casar. Gostavam da vida simples que levavam, sem maridos e filhos, zangas ou canseiras. E viveram a vida adulta juntas, na casa dos pais.

Já idosas, ambas temiam a morte. Mais por se perderem uma à outra do que por medo do outro lado. Combinaram então que a primeira que partisse, viria cá abaixo (partindo do pressuposto que existiria céu) contar à outra o que acontecia depois da morte.

Uma combinação pretexto para que a morte não as separasse. Mais do que qualquer curiosidade pelo outro mundo.

Ana partiu primeiro. E Maria vagueava pela casa sempre à espera que a irmã lhe aparecesse. Ana demorou muito a vir mas num dia de junho com muito sol, surgiu a Maria na cozinha, junto à máquina do café.

Maria, radiante de alegria, abraçou a irmã. Trocaram beijos e afetos. E, por fim, mais por dever do que por interesse, Maria perguntou: "Então, Ana, como é do outro lado?"

E Ana respondeu: "Tudo o que comi, nada vi. Tudo o que dei, lá encontrei".


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Vida Organizada






Gosto muito de organização.

Ser uma filha organizada, metódica e disciplinada, de dois pais que são o inverso de tudo isto, trouxe-me uma infância e adolescência muito atribulada. Entre dois mundos opostos, fui formando a minha personalidade, consegui ter a real perceção entre o certo e o errado, e encontrar um meio termo.

Hoje não sou de extremos, em nenhuma área da minha vida. Mas continuo a apreciar as coisas no seu sítio, os ambientes onde cada um sabe com o que contar, sem melodramas quando o inesperado acontece.

Faço listas de tudo. Procuro organizar e aproveitar o meu tempo da melhor maneira que consigo. Tenho muitos interesses, gosto de muitas coisas, e de muitas coisas diferentes, por isso obrigo-me a fazer listas de tudo, a dividir por categorias, a elencar prioridades.

Não gosto de me dispersar muito. Mas aprecio muito os momentos calmos e serenos quando os consigo ter. Aí desligo de tudo, das listas, dos problemas, das prioridades. Aí não há organização. Sou só eu e os meus pensamentos. Onde me tento ouvir, perceber o que sinto, tentar saber quem sou.

Valorizo muito a organização interna. Ter gavetas no cérebro, arrumadas, e que posso abrir e fechar de acordo com a minha conveniência. Saber o que sinto. Saber o que sinto e por quem. Distinguir medo de angústia. Alegria de felicidade. Razão de coração.

Ter uma vida organizada, por dentro e por fora, traz-me a serenidade que eu preciso para os sobressaltos do dia-a-dia.

E vocês, como se organizam?

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A minha alegre casinha...






A minha casa é o meu refúgio. É o único sítio do mundo onde me sinto bem, em paz, com a maior sensação de pertença que jamais senti.


No fim de um dia de trabalho, quando as horas se estendem por um tempo que não se consegue medir entre telefonemas, pessoas que vão e vêm, chefes que mandam e desmandam, prazos, pressões, pessoas a berrar e a buzinar no trânsito, supermercados com filas de gente na caixa, no fim de um dia destes, entro em casa, mergulho no silêncio e encontro a paz.

Quando morrer vou sentir falta da minha casa. Penso que é do que vou sentir mais falta. Não vai ser da comida nem das viagens, nem sequer dos livros. É do meu espaço seguro que vou sentir falta, das suas paredes protetoras, do seu cheiro, dos espaços amplos que sei percorrer de olhos fechados, dos barulhos que reconheço mesmo que outros se lhes sobreponham.

Penso que o mais triste de morrer é não poder mais estar na minha casa. De me sentar no sofá, a ouvir a Rosie Thomas. De me chegar ao balcão da cozinha e fazer um arroz de cabrito. De regar as minhas orquídeas. De me sentar na cama a ler os meus livros. 

Sim, vou sentir muito a falta da minha casa...


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Histórias à Sexta!


Dizem que os homens gostam mais que uma mulher ao mesmo tempo. Dizem mesmo que os homens traem com facilidade e que todos os homens já traíram as suas companheiras pelo menos uma vez na vida.

Eu sou homem e tendo a concordar. Não sei bem explicar o que nos leva a fazer o que fazemos, penso que seja algo a ver com a nossa natureza, mais animal que racional.

Não quer dizer que não amemos uma mulher. Claro que amamos! E amamos de verdade, com todo o nosso ser e a nossa atenção. Dedicamos-lhe tempo, queremos trata-la como uma princesa, somos todos dela. Mas a verdade é que dura pouco tempo. Passada a fase da paixão, em que tudo na mulher é considerado avassalador, brilhante e um desafio, o desejo esmorece. Não quer dizer que tenha terminado o amor e o interesse. Mas tornou-se enfadonho. E os homens gostam de um bom desafio, de ter alguma coisa porque lutar e fazer birra.

É como um brinquedo para uma criança. A criança deseja muito o brinquedo, faz tudo para convencer os pais a dar-lho. Depois de o ter, dedica-se alguns dias a ele, passa todo o seu tempo a brincar com aquele brinquedo que tanto queria, mas depois farta-se e quer um brinquedo novo, mais moderno, diferente, mais desafiante. Porque do brinquedo antigo já conhece tudo.

Não consigo explicar esta característica do sexo masculino a não ser da nossa incapacidade natural para evoluirmos no sentido da maturidade plena. O homem é naturalmente pouco evoluído emocionalmente e não consegue ultrapassar essa característica por mais que tente.

Vejam o meu caso: tenho sessenta anos e conto com quatro casamentos, seis filhos e um punhado de relações amorosas. Fui feliz com todas as mulheres que tive, amei-as de verdade, com todas as minhas forças, e com tudo de mim. Não sei amar de outra forma.

Se pensar bem, ainda as amo, penso em todas elas quase todos os dias. Há dias em que gostava de ter a minha primeira mulher ao meu lado, para logo a seguir dar comigo a pensar que se tivesse a primeira comigo, ia sentir falta da terceira. E assim sucessivamente. A minha filha mais velha diz-me que devia enumerar as mulheres todas que tive na vida, de 1 a 100 (é ironia dela!), e escrever o que gostava da 3, da 15 ou da 20, porque lembrar-me dos nomes de todas já não é para a minha idade.

Casei pela primeira vez aos vinte e dois anos com uma colega da escola. Gostava verdadeiramente dela e pensei que fosse para sempre. Era leal, ternurenta, amável e apreciava a sua companhia. Estivemos casados dezoito anos e tivemos três filhos. Ao fim dos quinze anos de casamento, continuava a gostar dela mas já considerava a nossa vida muito desinteressante e previsível. Fui tendo algumas aventuras com colegas do trabalho e ia preenchendo vazios conforme podia. Acabei por gostar verdadeiramente de uma colega nova que entrou para o escritório, divorciei-me da minha mulher e casei com ela.

Era o paraíso! Uma nova vida pela frente, cheia de novidades e coisas novas para explorar! Estivemos juntos dez anos e tivemos dois filhos. O casamento terminou de mútuo acordo, sem conflitos nem mágoas.

Estive alguns meses sozinho, perdido na rotina do trabalho e das visitas aos meus filhos. Numa noite de jantar de Natal da empresa, conheci a minha terceira mulher. Apaixonamo-nos e casamos em menos de três meses! Fui verdadeiramente feliz! Do nosso casamento, nasceu o meu sexto filho, por quem sempre senti uma certa preferência, talvez por provar a minha virilidade já a meio da vida. Estivemos juntos pouco tempo, pouco mais de dois anos. A vida com fraldas e choro a leite entediou-me bastante. Quando era novo, os filhos eram uma novidade maravilhosa! Mas com mais de cinquenta, já não tinha paciência para a vida caseira, de noites sem dormir e de sopas passadas.

Nesta fase da minha vida, escolhi para minha quarta mulher, uma senhora da minha idade. Já tem os seus próprios filhos, por isso não se importa nada com os meus. É reservada na presença de outros mas audaz quando estamos sozinhos. Consegue ser meiga e firme com a mesma intensidade. Gosto sinceramente dela.

Mas ultimamente ando desassossegado novamente. Não sei que tenho. Já me aborrece esta vida um pouco monótona. Não sei se é dos filhos estarem crescidos. Se da reforma. Mas não me sinto satisfeito.

Tenho pensado ultimamente em me colocar novamente no mercado. Pode ser que com a quinta mulher, desta vez, acerte!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Sobre as Prioridades...



Tenho aprendido a definir prioridades e a distinguir o que realmente importa do que é apenas supérfluo e absolutamente descartável.



Cada vez valorizo menos o trabalho (entenda-se o trabalho formal). Passamos demasiado tempo no nosso local de trabalho, em ambientes de grande tensão, stress, exigência e pressão. Vivi quinze anos nesse cenário, absorvida com o fazer mais e o fazer melhor.



Agora encaro o trabalho como o meu mal necessário. Relativizo mais. Respiro mais vezes fundo. Desvalorizo a maior parte das coisas. Digo muitas vezes não.



A minha prioridade são os meus e o tempo que passamos juntos, com qualidade, com afeto, com disponibilidade total.



As prioridades também se treinam e aprendem.