Gosto muito de cozinhar.
Desde criança que a minha avó nos reunia (a mim, à
minha irmã e aos meus primos) à volta do fogão. Juntos fazíamos um bocadinho de
tudo, desde doces a salgados, a compotas, molhos e bebidas.
Os meus avós eram pessoas do campo, muito simples e
práticas. Tinham um pequeno quintal que o meu avô cuidava com muito desvelo, e
alguns animais também. Do que o quintal dava, a minha avó aproveitava tudo. E
inventava muitas receitas, que eram criadas de acordo com os ingredientes que
ela tinha em casa.
Em casa da nossa avó, a cozinha e o quintal eram o
nosso centro, o nosso céu, à volta dos quais, tudo girava. Acontecia sempre que
a avó nunca repetia receitas. Simplesmente porque como inventava tudo no
momento, mais tarde não se lembrava já como fizera, para voltar a fazer. Se
gostávamos muito de um bolo, já sabíamos que esse era único e especial. A avó
já não saberia fazer igual outra vez.
Os meus avós não sabiam ler nem escrever. Nunca
andaram na escola. Por isso, não se apontavam receitas. Não se estudavam poções
em livros. Aprendia-se com a experiência da vida diária e com as mães e as
avós.
A minha irmã, que era a mais velha de nós todos, e por
isso a primeira a entrar na escola, mal aprendeu a ler e a escrever, começou a
apontar, em cadernos coloridos, todas as receitas da avó. Nos anos seguintes,
fomos acumulando um manancial de preciosidades da avó Micas. Com a ajuda da
produção do quintal do avô Sousa.
Conservamos esses cadernos até hoje. A maioria das receitas
já sabemos fazer de cor. Outras ainda consultamos. A muitas, já fizemos
adaptações. Todos adoramos cozinhar. Todos inventamos na cozinha. Em nossas
casas, a receita de hoje nunca mais se repete. Não sabemos fazer igual
novamente.
Mantemos todos o amor ao quintal. O quintal ainda se
mantém cultivado e tratado. Todos nos abastecemos do que ele dá.
A vida consegue ser muito bela quando a mantemos
simples. A avó Micas e o avô Sousa, onde quer que estejam, estão a sorrir-nos.
Tenho a certeza!




Tão bom... realmente existem experiências muito fortes que nos moldam... recordações para a vida!!!
ResponderExcluirSim, com certeza!
ResponderExcluirAdoro! Que bela recordação.
ResponderExcluirEu tenho um assim escrito à mão, de receitas também da minha avó. Mas é recente =)
Beijocas
Infelizmente os meus avós morreram ainda eu não andava na escola e por isso nunca pude escrever um livro com as suas receitas mas adoro esses que têm, espectaculares.
ResponderExcluirQue maravilha de recordação !!!
ResponderExcluirDeve ser tão bom folhear e voar no tempo.
Eu só conheci um avô e a recordação que tenho é que não gostava de comer gelatina, "porque abana por todos os lados"
beijinho