O Padre Avelino tem setenta anos. Há mais de quarenta
que percorre o interior do país para levar a salvação às almas. Faz centenas de
quilómetros todas as semanas, de aldeia em aldeia, para fazer batizados,
casamentos, funerais, extremas unções e, muitas vezes, espantar os espíritos
que atormentam pessoas de bem.
Encara o sacerdócio como uma missão e não como um
dever. Acredita que pode chegar às pessoas e mudar-lhes a vida, levando-as a
encontrar o caminho do Bem.
Sabe falar com elas, apaziguá-las, dar-lhes bons conselhos,
mediar conflitos entre vizinhos, brincar com crianças, e conhece ainda muito
sobre medicina, sabendo os segredos das ervas. A todos acode, sem deixar
ninguém de fora.
De seu, não tem nada. Nem casa, nem carro, nem bens.
Apenas dois fatos, duas camisas e um par de sapatos. Duas mudas de roupa
interior. Dorme em casa das pessoas a quem acode, muitas vezes em algumas
pensões, e não raras vezes, na rua. Come o que lhe dão. Bebe água das fontes.
Não é exigente.
Mais que o apelo da igreja, o Padre Avelino sente o
apelo do Outro. Interessa-lhe mais o homem mundano do que as lides da igreja.
Muitos apelidam-no de Santo. Avelino encolhe os ombros com um sorriso, e nada
diz. Nunca negou que tem contacto direto com o além. E é frequente acontecerem
pequenos milagres, quando está por perto.
Certo dia, apanhou o comboio para se dirigir a uma
terreola. Não comprou bilhete porque não tinha dinheiro. Dinheiro era coisa que
nunca lhe interessou. Ia a meio do caminho quando o revisor apareceu e, não
tendo como pagar, o Padre foi expulso do comboio. Já na rua, Avelino anunciava,
"se eu não for, o comboio também não vai", e a verdade é que
o motorista não conseguiu voltar a fazer o comboio andar. Ficou parado na
estação, nem para um lado nem para o outro. Até que uma senhora, reconhecendo o
Padre Avelino, avisa que se querem que o comboio ande, o padre têm de levar. Já
sem saber o que fazerem e perante o protesto dos passageiros, o revisor e
motorista, deixam o Padre entrar novamente no comboio. O motorista prega
novamente fundo, e o comboio arranca sem aparente dificuldade.
Há vários acontecimentos como este na vida do Padre Avelino.
Nas aldeias, todos lhe conhecem a fama. Mas o Padre não confirma nem desmente.
Vive a sua vida com a mesma simplicidade de sempre, sem manias ou caprichos.
Fala diretamente com Deus. Não precisa de nenhum colega para intermediar. Há
muito tempo que não cumpre nada do que a diocese lhe manda. Faz como bem
entende. Por norma, e apesar de ser um deles, não gosta de padres. Muito menos
de bispos e afins. Aprecia mais o contacto com a Natureza do que as paredes de
uma igreja. Não tem nada contra a Bíblia. Mas entende que o seu Deus é mais
generoso e brincalhão do que aquela retrata.
Já não se fazem pessoas como o Padre Avelino. Quando
ele morrer, cá em baixo vão sentir a sua falta. Não a falta de um homem da
igreja. Nem a falta de um santo. Mas a falta de um amigo. Não há maior tesouro
do que o de ter um amigo.
Mais uma vez gostei muito do conto e que bom seria se houvesse mais padres Avelinos por esse país fora.
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