Tive sempre uma vida serena e fácil. A filha mais nova
de dois filhos mais velhos. A neta mais nova. A sobrinha e afilhada mais nova.
A mais nova de todos os primos. A menina da família, protegida, amada, para
quem não havia obstáculos.
À medida que fui crescendo, e após uma infância doce,
apercebi-me que as coisas não eram sempre simples, que as contrariedades fazem
parte da rotina diária, e que os outros não são dóceis nem bons nem fáceis.
Desde 2017, que a vida me tem vindo a ensinar isso de
forma acutilante. Pela primeira vez, senti na pele a maldade humana na sua
forma mais cruel. Tenho aprendido que a vida é sinónimo de sofrimento e que a
leveza que trazia da infância, não passa de uma ilusão temporária, a que só os
mais felizardos têm acesso.
Se 2018 foi um ano difícil, nada me preparava para o
início de 2019. No dia 24 de fevereiro, partiu o meu padrinho, enquanto dormia.
Tinha 67 anos e foi sempre o melhor pai do mundo! Tenho pai, felizmente. Mas o
meu padrinho era a referência masculina da minha vida. Não há dia nenhum de
todos os dias da minha vida, em que eu não tivesse o meu padrinho por perto.
Velou-me a infância. Protegeu-me na adolescência. Deu-me todos os conselhos
possíveis na entrada da idade adulta. Fazia parte do meu dia-a-dia com a sua
boa disposição, a sua presença constante e firme e a sua solidariedade sem
limites.
Para além de meu padrinho, era meu tio, meu amigo e
meu vizinho. Uma âncora. Um abrigo. Um porto seguro. Uma casa. Era dele a
"Casa do Pátio" que dá o título a este blogue. Precisei de muito
tempo para conseguir vir aqui ao blogue escrever umas linhas. Continuo
desanimada e triste. Desamparada e sozinha. Mas a fase da revolta já passou.
Ficou só a saudade imensa que sinto a todos os minutos, a sua ausência que dói
de forma dilacerante.
Continuo a tentar estabelecer uma nova rotina enquanto
amparo a viúva (sua companheira de todos os dias há mais de 50 anos), o filho
(o biológico, porque o meu padrinho foi pai de muita gente, eu incluída) e restante
família. Não sei como vamos todos sobreviver sem ele. Como nos vamos reerguer e
juntar as peças novamente.
Dizem-me que é um dia de cada vez. Que daqui a uns
tempos, começa a melhorar. Mas eu não acredito. Ainda o ouço e o vejo quando
menos espero. Lembro-me da comida que gostava, dos seus jogos do Benfica, da
sua generosidade ilimitada.
Refugio-me nos livros, como sempre. Comecei a ler
sobre as experiências de quase morte, na tentativa de encontrar algum conforto.
Mas como encontrar a paz quando acompanho diariamente a minha tia, que não sabe
mais como viver sem o seu amor e a sua companhia de meio século?
Espero continuar a vir aqui novamente. Com
regularidade. Espero ter forças para isso.



























